31 de outubro de 2009

O espírito dos dias


Este feriado prolongado, dia de finados, traz duas mil dúzias de coisas que tenho que fazer, e, olhando friamente, até tempo para fazê-las.
Mas não há energia para tanto. Não há energia para nada.
Eu bem queria dizer que esse meu desânimo é em decorrência do assassinato de um ex-aluno meu de catequese, na noite de ontem. Não é. Acho que não sou tão humano assim. Pensei por alguns instantes, quando recebi a notícia, que eu tinha alguma culpa no ocorrido. Não tinha. Talvez, o envolvimento desse ex-aluno com o tráfico, apenas revele que eu não sou exatamente um professor de carisma, alguém admirável como diz Freud em "Alguns apontamentos sobre a psicologia escolar". Ou pode ser que, reintérprete de um papel já definido, esse papel não seja exatamente bom, daí eu não poder desempenhá-lo tão bem como gostaria.
Fico lembrando da personagem da Baiana, do filme "Ó paí, ó", que todo o tempo se queixa, jornal na mão, do aparecimento de "mais três presunto". A morte ficou banal, ao menos pra mim. Daí não acreditar que a origem de meu desânimo foi tão funesta notícia. A vida segue como sempre seguiu: vamos com ela até a morte, literalmente.

Isso, se tivermos gasolina para chegar até lá.

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24 de outubro de 2009

Amigos são...

Estes últimos dias têm sido os dias do amigo. Sim, num movimento que começou na quinta-feira, a cada dia eu tenho encontrado com um grupo diferente de amigos.

Tudo começou na quinta-feira, quando fui a um bar (o plano inicial era cinema) com a galera da faculdade. Em termos de amizade, é evidentemente o grupo mais novo (em termos de "fazer parte"). Comemos, bebemos, rimos e rimos mais um pouquinho dos efeitos do álcool.
Foi bacana.
Ontem, sexta-feira, foi dia de encontrar com o grupo de amigos do ensino médio. Rimos absurdamente, bebemos muito mais, lembramos as mesmas histórias do tempo de antigamente que sempre lembramos, dançamos a rodo ao som de músicas dos anos 80. Fizemos planos, contamos como mesmo nossos trabalhos horríveis daqueles tempos, a rotina absurda pra moleques de 16 anos, naquela época tudo era mais fácil e divertido. Gravei um cdzinho (igual antigamente se gravavam K7's) com umas coisas pra um desses amigos ouvir. Prometi um poema, duma idéia que surgiu lá mesmo.
Foi bem bacana.
Hoje, sábado, vou atender ao convite (inesperadíssimo!) de um amigo dos tempos... do ensino fundamental! Lá da terceira, quarta série primária, e que não vejo há, pelo menos, uns 10 anos! (com "ver" eu quero dizer sentar, conversar e coisa e tal, nada de encontros casuais pela rua).
Só o inesperado do convite já bastou para iniciar um movimento grande em mim. Ainda não sei como será o reencontro, tão distanciado no tempo, referente há uma época tão, tão remota.
Entenda que a ansiedade desse reencontro é proporcional à importância dele: éramos amigos inseparáveis e, para se ter uma idéia, eu comecei a colecionar quadrinhos com esse amigo! Eu comprava um gibi, ele comprava outro, líamos, trocávamos e depois armazenávamos num lugar comum (a casa dele, que era pertinho e mais organizada).
Vem aí um lance bacana.

A verdade é que esses encontros todos têm me feito pensar na amizade como instância, como instituição, como fonte de vida, de suportar a vida. É uma verdade sartreana doída e incontestável, de que nascemos sozinhos e sozinhos morreremos, mas precisamos passar o espaço entre uma coisa e outra igualmente sós?
Ontem, quando dançávamos ao som de "Meu erro", do Paralamas, um grupinho de pessoas ao nosso lado se abraçou e seguiu dançando assim. O Leandro, que estava comigo, arremendou: "Bicho, essa energia que vem da amizade é foda!" É mesmo. Foda. Nós dois ali, que nos vemos tão pouco (essa semana tivemos dificuldade de nos falarmos por telefone!), aspiramos aquela energia e improvisamos os passinhos mais malucos e ao mesmo tempo, mais divertidos (tão malucos e divertidos que, imediatamente em seguida, um sujeito se aproximou de mim e falou: "Cara, amanhã quando estiver sóbrio, em casa, quero lembrar desse passinho aí e fazer igual" ao que eu respondi: "Eu também!").
Não tem jeito de repetir. Aquele passinho veio não só da energia daquele momento, mas da energia plena de história, de vivências que compartilhamos, dos momentos engraçados e das ciladas de quase dez anos atrás. Aquele passinho não se repete: é preciso vivê-lo de novo, e vai ser diferente.

Mas tudo isso tem um ponto triste: rever essas amizades antigas, deixa claro que o tempo está passando e nada nunca permanece como está. Tudo muda de um jeito ou de outro, e nunca mais teremos (mesmo que se volte a conviver diariamente) a mesma sensação que tínhamos há quase dez anos atrás. Nos atualizamos. Mudamos. O que permanece, e se mantém, é coisa de outra ordem.

Exemplo disso são meus amigos da faculdade. Se a amizade tivesse fases, estaríamos no mesmo estágio que eu, Leandro e Zebra (o pessoal do segundo grau) tínhamos lá nos primórdios. Aquele estágio da aventura, do descobrimento mútuo, do estabelecimento de confiança. Mas é diferente. Há oito anos atrás eu me socializava, fazia amigos de maneira diferente do que faço hoje. E a isto nem estou acrescentando o fato de que também os amigos são outros, muito outros, vindos de contextos diferentes e indo para lugares diferentes.
E pode ser que você faça uma leitura rasteira e diga: "Ah, quer dizer que suas amizades do ensino médio são melhores que as da faculdade?" Não, é uma grande mentira. Diferente não implica, necessariamente, uma hierarquização. Implica simplesmente que não é igual. Nunca seria. É uma constatação, não um juízo de valores.
Retomando, lembra de Heráclito de Éfeso? Filósofo clássico famoso por ter afirmado que um homem não pode atravessar duas vezes um mesmo rio? Pois então. Por mais que não se possa atravessar um mesmo rio mais de uma vez, atravessá-lo torna-nos um tantinho mais traquejados para atravessar outros rios. A gente aprende como se portar, mais ou menos o que normalmente funciona na travessia dum curso d'água. As experiências não se repetem, mas guardam um denominador comum que podemos fazer uso.
É assim com tudo na vida, é assim com as amizades. Um sujeito com muitos amigos tem, certamente, mais facilidade para fazer novos do que um sujeito muito recluso.
Todos os meus novos relacionamentos, todos os relacionamentos velhos que já retomei, dão-me esperança para agora retomar um outro, que foi tão significativo a seu tempo (e continua sendo, pois é presente na ausência). Atravessei muitos outros rios da quarta série pra cá, vou atravessar ainda inúmeros outros, espero. Mas é importante voltar e atravessar de novo aquele outro, lá do início da caminhada. Tomar de novo dele as águas e as energias.
Amizade (de verdade) é isso: é energia líquida, é tônico para segurar as barras da vida. Pode não ser a panacéia universal, mas tudo fica muito mais difícil pra quem não lhe bebe das águas.
Estes dias, tive muita sorte de poder beber das águas mais frescas que se podia achar. E melhor, tive sorte de poder mesmo encher o cantil.

A vida segue, e o sol não põe mais tanto medo.



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Este post é um agradecimento, sincero, emocionado, aos meus amigos. Aos que revi nestes dias, aos que não pude rever. Aos que recebi notícias, àqueles dos quais não sei muita coisa há muito tempo. A todas essas pessoas que, de uma forma ou de outra, seja numa postagem de blog, seja num convite que não pude aceitar, numa ligação que não pude atender, se fazem presentes na minha vida. Muito obrigado.
E eu nem acho que mereço.


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8 de outubro de 2009

Ética? Reflexões sobre a atuação do psicólogo clínico [ATUALIZADO]

Ontem, antes de um acidente me fazer voltar para casa, minha professora de "Teorias e Técnicas Psicoterápicas" iniciou uma discussão com a turma sobre o que uma pessoa deveria ter para ser um psicoterapeuta. Imbuída de um monte de coisas que, de tão repetidas já se tornaram chavões irrefletidos (sensibilidade, empatia, capacidade de "ouvir"), a conversa avançava morosa até que alguém lembrou do aporte teórico. Todo mundo concordou, ainda que com algum burburinho, e a conversa continuou. Mas já estava instaurado um grande incômodo em mim.

E ele dizia do seguinte: qual o nosso critério para julgar se alguém é um bom psicoterapeuta ou não? Um colega citou Contardo Calligaris, famoso psicanalista italiano radicado brasileiro que, em seu livro "Cartas a um jovem terapeuta" (2004) termina dizendo que a preocupação em ser um bom terapeuta já é meio caminho andado para sê-lo. A frase é bonita, mas mais poética do que prática. O mero desejo de ser bom não faz de alguém bom. Num caso real, citei a terapeuta carioca Rozângela Alves Justino, que foi assunto recentemente porque ia ser julgada pelo Conselho Federal de Psicologia por afirmar "curar a homossexualidade". Porque citei essa infame colega? Porque, em nenhum momento, eu acredito que a Srª Rozângela aja de forma maquiavélica do tipo que diz: "Vou afirmar que curo a homossexulidade e encher os bolsos de dinheiro com os palermas que aparecerem". Tenho com muita clareza que também ela, assim como os seus clientes/pacientes, acredita "de coração" numa cura. E trabalha em prol dela, de melhorá-la, de torná-la mais eficiente. E aí, Dr. Calligaris? No mesmo balaio da citada terapeuta, entram todos aqueles que fazem do setting terapêutico local de prática do reiki, dos florais de Bach, da acupultura² e de outras práticas que nada tem a ver com o saber psicológico (mesmo que algumas sejam sérias e válidas).
Tampouco o aporte teórico pode tornar-se critério de verificação da qualidade de um profissional. Por dois motivos: primeiro, toda a academia conhece dúzias, dezenas e centenas de casos de grandes acadêmicos (e, portanto, conhecedores da teoria) e que são péssimos terapeutas. Não nasceram pra isso, não têm o traquejo básico, inicial e necessário para o ofício. Nada de mal nisso. Ao mesmo tempo, o que mais existe por aí são teorias. Mesmo a infame Rozângela encontraria respaldo nos escritos freudianos, por exemplo, para perpetuar sua prática. Golpe de misericórdia, alguém citou a "satisfação" dos clientes. Acredito que um terapeuta, por pior que efetivamente seja, se tem ali à sua frente uma quantidade considerável de clientes/pacientes, algo de bom sua prática deve produzir nos que o procuram. A própria Rozângela ergue em sua defesa considerável número de ex-clientes (e "ex-gays") satisfeitíssimos com os resultados que obtiveram, e que lhe indicam os amigos, os amigos dos amigos que porventura sofram do mesmo "mal".
Deste ponto em diante não pude continuar. Alguém lá fez um comentário que mudou todo o rumo da conversa, e tenho a nítida impressão que soou como se eu estivesse defendendo que, na ausência de critérios verificáveis, então tudo é válido desde que o cliente saia satisfeito.

A verdade é que meu ponto representava simetricamente o oposto disso.

Pra mim, a ausência de um critério válido e palpável na Psicologia, sobretudo no país, é assunto da mais grave importância. Mas quem teria o direito de estabelecer esse critério? Oras, quem mais senão os próprios psicólogos, através de seu órgão de classe, o Conselho Federal de Psicologia? Oras, se o CFP não reunir em si as atribuições de representar, disciplinar e fiscalizar a prática da psicologia, quem mais o fará? A OAB?
Mas aí é que está o nó: na ânsia de abarcar (e validar) práticas tão, mas tão distintas que chegam a ser contraditórias¹, o CFP acaba, com o perdão do mal termo, "abrindo as pernas", fica difícil dizer agora o que pode e o que não pode porque... bem, faltam critérios! Ao mesmo tempo, na melhor tradição do "homem cordial" proposto por Sérgio Buarque de Holanda, o CFP parece ter medo de morder hoje a mão que pode vir a lhe alimentar amanhã. Pra mim, prova inconteste disto é que, apesar de contrariar publicamente uma norma do CFP que já conta com dez anos de existência (é proibido afirmar que homossexualidade é doença), Rozângela Justino recebeu uma punição tão branda que chega mesmo a ser uma premiação.
A meu ver, cabia ao CFP instaurar normas rígidas e fazê-las valer. Delimitar exatamente o que pode e o que não pode ser feito. Sim, isso já existe. Mas há uma máxima do Direito que diz que a norma sem sanção não existe. Ou seja: se não existe punição, a lei perde a força e não pega. Rozângela e outras tantas por aí continuarão curando gays, lendo o tarô e jogando os búzios dentro do setting se o máximo que lhes pode ocorrer for uma censura pública. Ao mesmo tempo, as novidades, as inovações devem ser profundamente estudas quanto à sua eficácia e validade ética antes de serem autorizadas e incorporadas. Foi assim na duplinha Medicina/Acupultura, por exemplo. O exato oposto aconteceu com a Psicologia e a Terapia pela Internet, validada pelo CFP antes da existência de estudos conclusivos sobre o tema.
Mas ao mesmo tempo há outro ponto, e eu não sou ingênuo à ponto de descolar o órgão representativo de seus representados, e dizer que toda a responsabilidade cabe aos primeiros (acorda Brasil! Isso vale pra política também, viu?). Porque o que se vê por aí, entre meus futuros colegas de profissão é uma camaradagem vergonhosa, que, diante do incorreto, segue aquela máxima que o ator Carlos Nunes, meu conhecido, sempre repete: "Se você gostou, recomende. Se não, então não fala nada pra ninguém pode ser?" Pois é isto que a maioria dos terapeutas (aquela minha professora do início inclusa) preferem fazer: recomendam aos conhecidos aquele excelente terapeuta e simplesmente ignoram ou reclamam entre si ("mas o nome não vem ao caso") dos maus profissionais. Confundem (ah, esses homens cordiais...) um profissional incompetente (que deveríamos mesmo apenas deixar de lado), com um profissional que beira o criminoso (cura os homossexuais, utiliza reiki na terapia, dá passe e traz de volta a pessoa amada em sete dias). Será que todos temos nossos rabos tão presos assim, nossos telhados são mesmo de vidro?
Porque pra mim, pode soar ditatorial, mas a classe só será reconhecida e levada a sério quando se levar a sério.

A opção é continuarmos vivendo nessa Terra do tudo-pode, vendo as Rozângela's Justino e os Antônio's Roberto da vida se multiplicarem por aí, ocupando o locus que deveria ser ocupado por profissionais da psicologia sérios e competentes...


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Notas
¹ Tomo como exemplo, sem qualquer juízo de valor, as práticas clínicas de rogerianos e comportamentalistas, por exemplo. Aos discípulos de Carl Rogers, as práticas da clínica behavioristas, diretivas e precisas soam antiéticas, desconsideram a singularidade e a capacidade de autoregulamentação do sujeito que ali se apresenta. Ao mesmo tempo, a aceitação incondicional da pessoa proposta pelos rogerianos certamente soa como enganação e irresponsabilidade aos ouvidos dos seguidores das propostas de F. B. Skinner.

[ATUALIZAÇÃO]
² Passeando pelo site do CFP, localizei que o uso da acupuntura por psicólogos é autorizada pelo Conselho, desde de que, naturalmente, o praticante tenha formação para tal.

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29 de setembro de 2009

[Pensando em quadrinhos] A trilogia do Infinito e a vida

Quando era moleque, um dia me caiu nas mãos uma minissérie em três partes chamada "Desafio Infinito". Obra da Editora Marvel pelas mãos do (então) expert em histórias cósmicas Jim Starlin, àquela minissérie se seguiram outras duas, chamadas, em ordem cronológica, "Guerra Infinita" e "Cruzada Infinita". Juntas, as três obras formaram a pouco lembrada "Trilogia do Infinito", e contavam a saga do titã louco Thanos e seu amor pela Morte e os esforços dos heróis em detê-lo (e depois, em deter as consequências das suas declarações de amor.
Mas a verdade é que, colocada de lado toda a questão cósmica e fantástica, algo se pode aprender dessa série, algo relevante para a vida. É disso que quero falar.



Como disse anteriormente, a primeira fase da "Trilogia do Infinito" chama-se "Desafio Infinito". Nela, ficamos sabendo do amor (amor mesmo) de Thanos pela Morte e do seu plano para conquistar a atenção e o amor de sua amada: matar metade da população do Universo. Para executar tão hercúlea tarefa, ele precisa reunir as seis Jóias do Infinito (Espaço, Mente, Alma, Realidade, Tempo e Poder), artefatos poderosíssimos que, juntos, tornam o portador onipotente. Durante a trama, Thanos consegue alcançar seus objetivos: une as Jóias na chamada "Manopla do Infinito" e, com elas, dissipa metade da população do Universo. Isso faz com que os heróis da Terra sobreviventes, bem como os campeões de outros mundos (como o Starfox, irmão de Thanos, ou Adam Warlock) se empenhem em deter o vilão e reorganizar tudo.
Naturalmente, depois das mais dramáticas batalhas, os heróis, tendo sido ajudados pelo acaso (a traição da neta de Thanos, Nebula), conseguem se apossar da Manopla e, em poder de Adam Warlock, ele a usa para consertar o caos gerado pelo titã louco, que acaba exilado.
Para evitar que tamanho caos se repita, Warlock toma duas decisões: primeiro, desfaz a manopla, e distribui as Jóias entre um grupo intergalático conhecido como "Guarda do Infinito", ficando cada membro com uma jóia (Gamora com a jóia do Tempo; Pip com a jóia do Espaço; Drax, o destruidor, com a jóia do Poder; Serpente da Lua com a jóia da Mente e o próprio Warlock com a jóia da Alma. A última jóia, da Realidade, foi entregue a um sexto e secreto membro, para que não fosse retomada). Já na segunda decisão, Warlock decide expurgar de si todo o bem e todo o mal, restando a plena neutralidade. Das duas decisões, esta é a que acarretará os maiores danos.
Pois então, ao "Desafio Infinito" se seguiu a "Guerra Infinita". Nela, vários heróis e vilões começam a ser atacadados por clones deturpados e malignos de si mesmos, as "contrapartes" (a mais famosa é a do Aranha, com seis braços e duas pernas). Inclusive Thanos (que vivia uma vida de fazendeiro no exílio pós-Desafio).
A verdade é que a parte má de Warlock, chamada Magus, intentava contra o universo, e só a improvável união dos heróis, da Guarda do Infinito e de Thanos poderia (e fatalmente conseguiu) vencê-lo.
Como se trata de uma trilogia, a terceira parte é um tanto óbvia: trata do embate dos heróis contra o lado bom de Warlock, chamada Deusa. Mas peraí: porque os heróis enfrentariam a parte boa de Warlock ainda se achando certos?
Em "Cruzada Infinita" descobrimos que a bondade de Warlock se personificou na Deusa que, criando o Ovo Cósmico (uma arma de poder imenso, quase equivalente à Manopla do Infinito) e convocando para seu exército todos os heróis que tinham alguma relação com o divino (Tempestade dos X-men e Thor, por exemplo) pretendia expurgar todo o mal do universo, iniciando uma verdadeira cruzada.
O problema, conforme descobrem os heróis sob o comando de Warlock, é que ao fazer isso a Deusa dizimaria toda a realidade. Era preciso evitá-la, claro.
Provavelmente (ou melhor, muito provavelmente) o que vou falar agora passe longe de ser o objetivo de Jim Starlin quando escreveu "A Trilogia do Infinito", mas o que é uma obra senão um suporte para múltiplas interpretações?
Diferente da primeira minissérie, as continuações ("Guerra" e "Cruzada" que são a mesma coisa em termos, com a diferença que a cruzada é uma guerra que se supõe santa) deixam de lado o niilismo de Thanos e seu amor impossível para se focarem no drama de Warlock, tendo de arcar com a decisão mais errada de sua vida, ainda que não menos bem intencionada. Onipontente, ao expurgar de si o bem e o mal, Adam esperava ter clareza em todas as decisões que, como Guardião da Jóia da Alma, teria de tomar dali em diante.
Mas a pergunta é: retirada a essência dual do homem, o que sobra? E mais, descompensada pelo reflexo invertido, o bem ainda é bom e o mal ainda é mau?
Assunto tangente no grande arco de Starlin, a conclusão que se chega é que, mesmo um sujeito que é considerado o homem perfeito (assim Warlock, que já se chamou simplesmente "Ele", é descrito) não pode existir de forma neutra. Afinal de contas, uma neutralidade humana (ou super humana) é impossível pois destrói a base: neutralizado, o homem se desumaniza. Vira uma pedra ou um metal, qualquer coisa que não um homem.
Esse dilema já estava presente lá nos estudos de Husserl, lá nos meados do século XIX, já apontavam: pode-se procurar (e imprimir) neutralidade em tudo, desde que o homem não esteja no meio. Perceba que Husserl, ao fundar sua fenomenologia, não pregava a dualidade bem/mal no homem (isso é coisa do Jung), mas a não neutralidade. Toda consciência escolhe, impõe significado próprio, altera e modifica. O mundo só pode ser neutro se não estivermos nele ou se considerarmos que, parte do mundo, nossa capacidade de "desneutralizar" as coisas é tão natural que só considerando-a é que podemos chegar a um estado "neutro".
Ao isolar o bem e o mal, Adam Warlock queria sempre decidir pelo "certo". Sem a noção de "errado" (provavelmente oriunda do bem e do mal conforme o cria) é possível ter certeza do certo?
Pode ser que você pense toda essa discussão como inútil, por dois motivos: o primeiro, porque Adam Warlock é um personagem ficcional. Segundo porque, mesmo sendo ficcional, ele sequer é humano!
Bem, para a primeira questão, vou sim a Carl Gustav Jung e Joseph Campbell, este especialista em mitologia.
Na opinião de ambos, um mito, uma história ficcional, fantástica e que encerra em si uma explicação para algo do mundo, serve também como tradutora de um conflito humano. Algo indiretamente indizível pode ser traduzido, representado num mito.
Sim, você não é bobo e percebeu que eu vou tomar a série de Jim Starlin como um mito. Sendo um, que questão humana ele encerra em si?
Justamente a dualidade bem e mal. Quem não se angustia quando, querendo fazer o bem, acaba causando o mal? Ou, quando se percebe desejando realmente o mal a outrem? Quem não desejou conseguir ser simplesmente justo? Quem nunca quis para si a neutralidade plena?
Jim Starlin encerra o caráter mítico de seu trabalho justamente ao colocar essas dúvidas no coração de Adam Warlock. Se no "Desafio..." Thanos fez tudo o que fez apenas por uma paixão, por amor, Warlock não quer repetir nada disso e se desumaniza¹.
Engraçado é que essa desumanização inverte as posições: nas séries subsequentes ao "Desafio...", Thanos (que conservara sua humanidade) deixa de ser o vilão e, redimido, é peça fundamental para o sucesso dos heróis (inclusive, é ele o depositário secreto da Jóia da Realidade), enquanto que o todo o problema foi gerado pelo próprio (e deseumanizado) Adam Warlock! E, ironia das ironias, Jim Starlin põe essa coisa não humana que Adam Warlock se tornou pra cuidar de qual jóia? A da Alma, oras!

Mas vamos inverter um pouco as posições. Quem nunca se percebeu querendo "corrigir" os defeitos de alguém? Lhe retirar o mau e usufruir apenas do que há de bom a se oferecer? Quantas vezes a gente não quis isso de nós mesmos?
O problema é que o ser humano, como disse Sartre, é um todo, e não uma coleção. Não se pode tirar uma parte ou outra, nem acrescentar nada. Cada sujeito é uma pessoa completa e bem acabada, seja nos defeitos ou nas qualidades.
Daí, pra se viver com uma pessoa, é preciso aceitar o "pacote completo": numa visão bem mercadológica, é preciso aceitar os defeitos (o mal) como sendo um preço a ser pago em prol das qualidades (o bem), sabendo que, sem essas coisas, não teríamos uma pessoa.
Teríamos uma pedra ou um metal.
E quem quer conviver com uma pedra ou um metal?
Nem Adam Warlock quis...


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Notas
¹ Se você ficou confuso com o salto do bem e do mal para as paixões próprias, explico melhor: quando expeliu de si o bem (a Deusa) e o mal (Magus) é preciso pensar a quem serviam este bem e mal. Ele expeliu o desejo de fazer o bem a quem? Fazer o mal a serviço de quem? Não ao mundo, ou ao universo. Se pensamos que ao expelir as duas entidades, Warlock esperava agir com justiça (e justiça pressupõe, de início, coletividade - todos sujeitos às mesmas leis e critérios), só podemos crer que o bem expurgado era o bem a ele, Warlock, assim como o mal expulso estava também a seu serviço! Não existe o absoluto bem nem o absoluto mal. Nem o Deus judaico/cristão é plenamente bem: até ele tem um "povo eleito"...

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28 de setembro de 2009

Hai-kai

Haikai dolorido (o mais)
de Lucas Ed.

Vontade de vomitar o vazio (não passa)
Pego a navalha para cortar os pulsos
e percebo que já estão cortados (e sangram).

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26 de setembro de 2009

Um conto


O velho diabo vivia num prédio velho e feio no subúrbio. Não estou me valendo de nenhuma figura de linguagem, tratava-se exatamente de um diabo (desde o dia em que decaiu do status de anjo) e velho, pois era assim que escolhia se mostrar. Ao mesmo tempo, também era velho e feio o seu prédio, adaptação residencial mal arranjada de um hospital desativado.
Muita gente dizia pelas ruas do bairro que, dado seu passado, o prédio era habitado pelas almas dos que ali morreram. As pessoas diziam isso sem saber, porque na verdade, só o velho diabo podia afirmar algo desse tipo com alguma precisão. E a real da coisa toda é que, bem, tudo que aquele prédio tinha era o fato de ser feio, uma pouco confortável e mal arranjada adaptação de um hospital desativado. Nada demais. Nada de almas.

Inclusive, o velho diabo se mudara para ali afim de encontrar mesmo as tais almas e, quando enfim se instalou, percebeu-se enganado. Pensou em reclamar, mas percebeu que seria bobagem: simplesmente se aproximaria do senhorio e se queixaria do engodo? Como o aluguel era barato e os demais moradores era um monte de isolados, que não se importavam com o que os outros faziam dentro de suas habitações, acabou ficando.
O velho diabo trabalhava. É obvio que não precisava, pois não carecia de pão-de-cada-dia nenhum, nem d’água pra beber ou coisa que se valesse o dinheiro. Todos os diabos, demônios e outros seres inferiores eram como sócios, os laços fraternos reforçados pela Queda que sofreram há tanto tempo atrás. Pois então, sendo todos os decaídos sócios (e se odiando como se odeiam todos os sócios), quando Satanás ofereceu ao Filho do Homem todos os bens da Terra, bem, ele antes havia consultado seus irmãos e irmãs e sabido que o podia oferecer, pois a propriedade era comum a todos. Tendo aquele diabo velho um quinhão de todos os tesouros da Terra, dinheiro e bens eram coisa que não lhe faltavam nunca, e o trabalho era executado mais por prazer e um pouco por disfarce. Velho como era, tinha chegado à conclusão que no meio dos homens, o bom é passar despercebido – do contrário, sua porta se encheria de pedidos, de propostas, de almas ainda em uso (das quais ele não gostava): se quisesse isso, teria continuado no Inferno, empenhado naquele trabalho que nunca termina.
Trabalhava como vigia noturno num templo cristão. Era um trabalho fácil, num lugar pacato, e que conservava uma deliciosa e evidente ironia que ele apreciava. Quem poderia recriminá-lo por isso? No caminho para o trabalho gostava de assustar uma ou outra criança que voltava da escola, só pelo saudosismo dos velhos tempos. Durante o trabalho, como existia ao fundo da igreja um grande lote vago, gostava de conversar com os gatos que ali vinham aproveitar a vida e cuidar dos filhotes decorrentes dessa fruição. A verdade é que não existe qualquer relação especial entre os demônios e os gatos, mas ele gostava de manter algumas aparências, e os gatos lhe convinham como uma. Quando largava serviço, como desde a aurora dos tempos nunca dormira, o velho diabo assistia televisão, se irritava com as cada vez mais comuns piadas que relacionavam gente como ele a advogados e lia, lia muito. Livros diversos, poemas, prosas, textos técnicos, lia de tudo. Lia mesmo a Bíblia, quando sentia-se nostálgico e queria lembrar com mais precisão (ou quase) duma ou doutra traquinagem dos tempos idos.
Pode-se pensar que essa rotina fosse cansativa, mas não era para o velho diabo. A verdade é que quem reclama de rotina nunca viveu exatamente o que vem a ser uma rotina desgastante como a do Inferno. Primeiro porque trabalhar com parente nunca deu certo em lugar nenhum, e no Inferno não era (e nem podia ser) diferente. A verdade é que no Inferno o serviço nunca termina e nunca leva a lugar nenhum. Sério mesmo, o Inferno é como o serviço público, com a diferença de que todos os servidores são irmãos, chefes e subordinados uns dos outros ao mesmo tempo. E se engana quem pensa que o trabalho maçante que aquele velho diabo um dia decidiu abandonar diz respeito a lagos de fogo e tormentos eternos, não senhor! O irritante serviço que abarrota o Inferno, que ocupa todas as suas linhas telefônicas, é a detestável compra e venda de almas, barganha eterna. Sempre há gente querendo vender a alma, ou parte dela, pelos mais diferentes motivos: a final do campeonato de futebol, uma eleição prum cargo político qualquer, a saúde de um filho, a salvação de um casamento, a doença de um rival. Qualquer coisa, qualquer pilequezinho põe os homens loucos de vontade de venderem aquilo que acham que têm. Aí se firmam contratos e acordos, se reconhece firma, três vias autenticadas, aquele inferno todo. E o sujeito consegue o que quer, e a nota fiscal, no Inferno, vai para a pilha de “mercadorias a receber”. Ao mesmo tempo, dali há alguns anos, quando o campeonato já terminou, o time já é hexacampeão, o sujeito já está no terceiro mandato, o filho já tem filho, o casamento já faz bodas, o rival já é defunto há tempos, os agraciados, os fornecedores, procuram de novo o Inferno, oferecem serviços, favores e milhões de fundos para re-obterem a mercadoria negociada. E dá-lhe análise de processo, reajuste de valores, preço do dólar, juros oficiais. Poucas vezes o sujeito consegue sucesso nessa barganha, e seu processo permanece na pilha das mercadorias a receber.
Dessa parte do trabalho o velho diabo até gostava, às vezes. Se divertia com alguns argumentos, chegava mesmo a gargalhar com a felicidade estampada na cara dos sujeitos que curtiam aquela felicidade fugidia do sucesso. Na hora de renegociar também, jogava duro, não cedia a apelações sentimentais de nenhuma espécie, aplicava as mais altas taxas sem dó nem piedade. No final, lá nos primeiros dias, quando o mundo ainda era jovem, chegou mesmo a divagar pensando naquela pilha de mercadorias a receber ficando imensa, tomando todo o Inferno. Essa sensação durou até a hora de receber a primeira mercadoria. Lembra como se fosse ontem, uma moça bonita que queria ser ainda mais bonita e encantar todos os homens endinheirados que lhe cruzavam o caminho. O velho diabo vestiu a melhor roupa, todos os irmãos fizeram o mesmo. Como fora ele o responsável por todo o processo, trazia a documentação na mão, pronto a receber o produto que comprara com alguma dificuldade.
Na hora precisa, deram de aparecer dois engomadinhos de mãos dadas com a mercadoria. Um deles trazia na mão um documento, assinado pelo Homem em pessoa, dizendo que a mercadoria era dele, pois ninguém pode vender o que não lhe pertence. Pegos de surpresa, todos os demônios se colocaram a consultar manuais e compêndios de regras e, abatidos, constataram a razão do Homem, manifesta nas mãos de seus arautos e representantes legais. Atordoado, o velho diabo praguejou, dizendo que nunca mais se dedicaria àquele trabalho inútil, que nenhum de seus subordinados/chefes atenderia mais ao telefone, redigiria acordos ou contratos. Aquilo era uma palhaçada e parava por ali! Foi então que o segundo engomadinho sacou da pasta outro documento: uma ordem expressa do Homem, lembrando que o Inferno, como qualquer repartição do mundo, respondia ao chefe de tudo, Ele, e que a ordem era manter o trabalho como vinha sendo feito, talvez até com mais empenho.
Cabisbaixo o diabo velho trabalhou naquilo mais alguns séculos, e foi vendo aquela pilha de mercadorias a receber crescer e crescer, ao mesmo tempo que o depósito sempre se conservava vazio. Com o tempo, cansou-se daquilo tudo, mandou as coisas todas às favas e pediu exoneração. Foi morar na Terra, “onde o tempo passa e tem televisão”. Escolheu um prédio feio e velho, onde os moradores diziam perambular as almas perdidas das pessoas que morreram no lugar, quando ainda era um hospital. Foi enganado, como você já sabe, frustrado no desejo quase infantil de enfim poder ver uma “alma perdida”.
Todas as manhãs, enquanto os fiéis faziam suas orações matinais, ele praguejava contra o Senhor do Universo, que era um crápula que criava as coisas e atulhava-as de burocracia e funcionários estatutários apenas para se divertir.

E, às noites, ia trabalhar. No caminho assustava algumas crianças na saída da escola, no trabalho conversava com os gatos do lote detrás. Fazia tudo isso, todo o dia, sem perceber que simplesmente tinha mudado de repartição...

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